sexta-feira, 18 de julho de 2014

5 meses

Faz hoje 5 meses, sensivelmente a esta hora, que perdi o meu pai.
Não era propriamente uma das primeiras mensagens que queria escrever, mas sabia que mais dia menos dia ia revisitar este assunto que marca de forma tão profunda o meu coração. Pode parecer estranho mas nunca me fez impressão falar sobre a doença e mais tarde a perda do meu pai. Falar sobre ele é recordá-lo com tudo o que de bom ele brindou a vida de quem o rodeou.

Lutou 3 anos. Sem dor, sem sofrimento, além daquele provocado pela incerteza do que a doença poderia fazer. Chorámos, eu e a minha mãe, muito. Ele pontualmente, muito, muito pontualmente, talvez uma vez por cada um desses 3 anos. Tenho dito que esse é um dos legados que deixou, a vontade de viver e o optimismo sempre e até ao último suspiro!

Há tantos pormenores, tanta coisa que gostava de partilhar...
Teve um carcinoma na boca. Foi operado e era para ter ficado no IPO uma semana...mas uma infecção manteve-o lá um mês. A minha mãe esteve sempre ao lado dele e nós íamos duas vezes por semana, eu, o piratinha que tinha na altura 4 meses e o S.. Esteve sempre positivo e às tantas louco para voltar para casa...naturalmente :).
20 meses (um pouco mais, talvez) depois e o diagnóstico de cancro do pulmão. Novo choque e de novo arregaçar as mangas para ir à luta...disse ele à minha mãe que tinha curado um, ía curar outro! Agarrei-me a isso! No período pós-diagnóstico e pré-tratamento, fez um exame na medicina nuclear e, este não tinha nada a ver com o outro...este não tinha cura! E lidar com isto?! O meu pai nem ligou...bola para a frente e eu, embalada pelo seu optimismo, sempre acreditei que havia muito caminho para percorrer!
Nesse Natal (2012) estava internado, saiu na véspera ou ante véspera de Ano Novo, por um descontrolo nos níveis de um ião. Litradas de soro não serviam de nada e foi um Natal...bem...só houve Natal por causa dos miúdos. 
Fez quimio e radioterapia. Desapareceu tudo...Muito, muito bom, segundo o oncologista...vamos ver até quando. Nesse Verão, o ano passado, ia fazer a remoção da hérnia Os valores das análises vieram estranhos e a anestesista mandou repetir passados uns dias. Nada que impeça a cirurgia disse ela aos meus pais. Dispararam os meus alarmes! Não sendo médica achei estranho um médico correr riscos com as alterações nos iões, e mais, sem que ele tivesse conseguido fazer com sucesso alguns exames respiratórios (por causa das sequelas na boca). E foi a primeira vez que me coloquei em acção e comecei a participar activamente nas consultas. A minha mãe esteve sempre na linha da frente e sempre falámos todos muito sobre o percurso que estava a ser feito, sempre concordei com eles e esclareci no que era necessário, mas a minha mãe estava muito abatida (como de resto seria normal) e o facto de eu ter conhecimentos na área tornava-me mais alerta para estes pormenores. Voltámos à consulta de anestesia e continuava na mesma. Não podemos operá-lo com estes valores.
De Novembro rapidamente chegou a Janeiro. Nova TAC e a 6 de Janeiro a confirmação...estava doente de novo :'(. Nova quimio mas mais leve...estranho. À saida e entre dentes perguntei se era paliativa...respondeu-me que quando volta, adoença é muito mais agressiva...encolhe-se e diz que não vale a pena fazê-lo sofrer. Aguentei-me e quando saímos do hospital fui ter com o S.. A primeira coisa que lhe disse foi...é em 2014 que fico sem o meu pai! Não me lembro a última vez que tinha chorado assim...
Esteve sempre lúcido e capaz, mas perdia a força, caiu algumas vezes o que nos partiu o coração. Uma noite foi para o hospital porque tremia, tremia, tremia, chegou lá e a minha mãe achou que tinha febre...confirmou-se. Tinha febre e uma pneumonia, da qual estava recuperar bem...só soube disso 5 dias depois porque não havia um médico fixo para falar com a família. Independentemente disso, foi bem tratado.
2 dias depois de ter ficado internado a minha mãe apanha uma gripe brutal e fico eu a fazer-lhe companhia. 3 dias na visita completa. Ele dormia bastante, descansava, conversávamos, pediu-me uma lista de coisas para levar, perguntei se queria o jornal e disse-me que não...não se descosia de que estava a ver cada vez pior. Punha-lhe creme, ajudava nas refeições...e a minha mãe melhorou. Voltei com as coisas que me tinha pedido. E os chinelos azuis, trouxeste?! Oh pai...esqueci-me! Aquele olhar que diz...só têm cocó na cabeça, mas a rir...como tantas vezes disse quando gozava comigo e com o S. Rimo-nos! Disse-lhe, a mãe está lá em baixo, agora ficas mais tranquilo, mais calminho com ela...e respondeu-me, abraçado a mim como tantas vezes tinha feito naqueles dias, que também estava muito bem comigo. Ainda hoje tenho o coração cheio ao recordar esse momento. Disse-lhe que o amava...sem reservas e de boca cheia. Ele sabia, eu sabia, mas nunca tinha sido dito assim, com todas as letras. E disse-o todos os dias, daqueles dias. Não sabia bem porquê, mas sabia...
Vim para casa e liguei à minha mãe. Já te ligo que a médica vem aí. Uma hora e meia e nada. Ligo de novo. A minha mãe meia atarantada diz que o meu pai não estava consciente. Não está consciente como? Está desmaiado, não acorda como??? A enfermeira não lhe dá um apertão no dedo como no outro dia?!!! Como está inconsciente??????? Diz que tinha o corpo em falência. Não parecia. Nunca imaginaríamos...nunca!!!!!
Liguei para o S. no trabalho. Vais dar aula? Não, pede substituição, vou-te buscar logo (eu tinha levado toda a gente e teria que os ir buscar) e aos miúdos e vou para o hospital. Assim que lá cheguei trocámos os planos...ele foi-me levar ao hospital e tratou dos miúdos o resto da noite.
Coma. Estava em coma. Ao olhar dormia. Com biombos dos lados, com o indicador ligado ao oxímetro, manga da pressão arterial e uma máscara de oxigénio. Falámos toda a tarde e noite com ele, até quando nos pediram para ir descansar, já bem depois da hora de término das visitas. Demos-lhe a mão e falámos, as duas, uma de cada lado...as tuas mulheres! A dada altura quase que obriguei a minha mãe a comer e ficámos só os dois. Falei...do orgulho e do amor que sinto, agradeci por tudo, tudo, até do chuto no cú em Nantes por causa da foto ao eléctrico! Principalmente pelo amor que sempre me foi dado, pela presença, pelo orgulho em mim que também nunca foi dito em voz alta mas se via em todos os gestos. Fui tão desejada pelos meus pais...o teu paizinho tinha-te loucura disse-me há uns dias a minha prof da primária! Disse-te, naquele momento a dois, que me ia custar horrores, mas que quando te sentisses preparado, quando achasses que era a hora, que podias ir, nós ficaríamos bem e eu, apesar das cenas com a mãe, iria cuidar sempre, sempre dela...e ri, e a seguir chorei. Não o queria pressionar, mas não o queria manter preso se fosse a altura...como sempre viveu a sua vida...decide tu! Nem acredito que tive coragem...e mais tarde vim a saber, por uma amiga enfermeira (de doentes oncológicos fora do país), que foi uma prova de amor...nem sei ainda se é isso que penso, mas foi o que senti na altura. Não suportaria a ideia de o ver sofrer. E ele não merecia! Não sofreu!
Chorámos o caminho todo de volta a casa. A minha mãe ficou a dormir aqui..fechámos os olhos...a angústia e o desespero tomavam conta de mim...Não nos ligariam se houvesse alguma alteração. Combinei com a enfermeira chefe que às 7:50 ligaria. Liguei às 7:45h porque já não aguentava mais...e o medo das notícias?!!!!
Está acordado e muito bem disposto! Chorei de novo e voei para contar à minha mãe, encolhida no sofá. Podíamos ir logo às 9h (novamente fora do horário...a situação assim o permitia) mas iam fazer as tarefas nos quartos e fomos mais tarde. 10:30h e a porta do quarto fechada. Passa o auxiliar e diz-nos que nem parece o mesmo...olhámos uma para a outra e a minha mãe sibila que às vezes as melhoras...só lhe respondo que temos que aproveitar todos os minutos e...oiço a voz dele! 
Estava sentado na cama, bem disposto! Agarrei-me a ele, não me lembro se as lágrimas chegaram a cair...o susto que nos pregaste, disse-lhe! Quero ir para casa, eu estou bem, respondeu. A minha mãe contou-lhe que estivemos lá durante a noite, que falámos muito com ele...ouvi tudo, respondeu-lhe! A sério?!! Sim, ouvi tudo! O ritual do creme, as festinhas e os abraços. Respirava melhor. Veio a médica falar connosco fora do quarto e ouvi-o a reclamar...eu estou aqui! do género...venham mas é para perto de mim! Vamos já, a médica está aqui...ahhh, ok!!!
Almoçou. Comeu a fruta. Ia comer o pudim. Cansou-se. Dificuldade em respirar e os braços a mudar de côr. Corro a chamar o enfermeiro. Temos que colocar a máscara...já estava, primeiro fiz isso e deitei-o. Oxímetro de novo. Tudo a descer. A minha mãe não se tinha apercebido, estava a arrumar qualquer coisa. Dou-lhe um berro para ir chamar de novo o enfermeiro...hoje já não sei se fiz bem ou mal...não sei qual teria sido a reacção dela a presenciar tudo, tudo. Calmo, fez força para respirar. Estava decidido a viver. Beijei-lhe a testa coma fazia. Repeti tantas vezes, tantas, que o amo. Olhou para cima. Fechou os olhos tranquilamente e deixou-se ir. Pediram-nos para sair. Demos-lhe um beijo, a minha mãe ainda meia sem perceber. Não quis sair, mas já não podia ficar. Batia ainda, fraquinho o coração. Desabei. Saíram as médicas e disseram à minha mãe que não tinha sofrido, que não se apercebeu. Pudemos voltar à sala e despedir-nos. Tão tranquilo. 
Não tinha pensado no que viria a seguir. Vão para casa e peçam a alguém para vos ajudar nos procedimentos seguintes. Sentámo-nos no sofá onde por aqueles dias nos sentámos várias vezes, em frente ao elevador, ao lado do quarto...logo ali ao esticar de um braço...e ele já não estava ali. 
Sequei toda. Liguei para o S.. Estava a dar aula. Chamem-no. Vai demorar um bocadinho a aula, é urgente?! Sim, CHAMEM-NO!!!! Ele percebeu logo! Jamais interromperia o trabalho se não fosse verdadeiramente importante. Nem me lembro o que ele me disse. Foi-se vestir e foi ter comigo a casa. Demorámos a sair do hospital...ainda pensei que se esperasse o podia ver ainda a passar. Ia demorar disseram-nos.
Revivo ainda cada segundo daquela manhã. A vida, a alegria, a força e o exemplo. Repeti várias vezes à minha mãe a forma tranquila como aconteceu e que fechou os olhos antes de deixar de respirar...hoje penso de forma completamente diferente. O fechar de olhos foi diferente, não como quando se pestaneja ou se adormece. Foi uma opção. Não sei o que viu, quem viu, ou o que ouviu, mas acredito que algo ou alguém o tranquilizou e o recebeu. 
As palavras nunca conseguirão transmitir o valor do que significa para mim ter estado com ele até ao fim. 
5 meses depois ainda não acreditamos. Daqui a um mês faria 63 anos...e o que sinto continua tão inalterado.
É preciso fazer o luto, mas como?!!!! Como se reage a ter perdido um pai, e não um pai qualquer?! É suposto chorar a toda a hora e mostrar que sofro, que sinto uma falta tremenda só da presença?! É suposto andar para a frente e fazer de conta que não se passa nada?! Tenho que pensar nos meus filhos e ser forte dizem-me. É um facto! E eles estarão sempre no topo mas, fará isso com que eu esqueça a saudade imensa que sinto?!!!
Partiu! Há 5 meses que partiu! Já não está doente e imagino-o a conversar com quem já cá não estava também, a rir, com aquele sorriso tão característico e a gargalhada sonora. Lembro-o assim...tão vivo!!!
Partiu

4 comentários:

  1. bem que relato..
    muita força..

    kisses***

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  2. Falar ou escrever, como é o caso, faz bem, é catártico. Força!

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  3. Sem palavras... mas as tuas disseram tudo. E estas palavras devem vir ao de cima sempre que as sintas.
    Independentemente das crenças de cada um, há um cavalo de batalha bem dificil de montar... chama-se Saudade.
    Força. :)

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